
A auditora de controle externo do Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES) Paula Sabra está entre os profissionais brasileiros que integram a equipe responsável pela auditoria externa da Organização das Nações Unidas (ONU).
Após concluir o primeiro ciclo de trabalhos no Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), ela teve sua participação renovada por mais um ano no Conselho de Auditores da ONU.
Em entrevista, Paula explica como funciona a fiscalização das contas da organização, os desafios de auditar instituições que movimentam grande volume de recursos e os aprendizados que a experiência internacional trouxe para sua atuação profissional.
Como funciona a auditoria realizada pelo Conselho de Auditores da ONU?
Eu atuo na equipe de auditoria financeira do UNFPA. O trabalho dura praticamente o ano inteiro, mas a entidade fica disponível para a equipe em dois momentos específicos. No meio do segundo semestre realizamos a Interim Mission, quando fazemos uma análise dos controles. Depois, na última semana de abril e durante o mês de maio, acontece a Final, já com as demonstrações contábeis consolidadas.
Nosso objetivo é emitir uma opinião sobre essas demonstrações financeiras, assegurando que elas representam adequadamente a situação da entidade. Paralelamente, também avaliamos os controles internos e buscamos contribuir para o aperfeiçoamento dos processos. Além da auditoria financeira, existe uma auditoria de gestão, que neste ano foi realizada em Bangladesh. Ao final, todos esses trabalhos são consolidados em um único relatório, apresentado à Assembleia Geral da ONU, que acompanha a implementação das recomendações.
Quais foram os maiores desafios dessa experiência?
A metodologia de auditoria é a mesma que utilizamos aqui, baseada em normas contábeis, mas o contexto é completamente diferente. Estamos falando de organizações muito grandes, com operações espalhadas pelo mundo, volumes de recursos extremamente elevados e um nível de complexidade enorme.
É um processo de aprendizado contínuo. No primeiro ano, estávamos conhecendo a entidade; no segundo, já conseguimos compreender melhor seu funcionamento e aprofundar os testes de auditoria. Quanto mais conhecemos a organização, mais conseguimos direcionar nosso trabalho para os riscos mais relevantes.
Também enfrentamos desafios técnicos importantes. Vivenciamos a transição entre normas internacionais de contabilidade do setor público, como a substituição da IPSAS 23 pela IPSAS 47, além de mudanças em outras normas contábeis. Isso exigiu um estudo intenso durante a própria execução da auditoria.
Outro desafio é a questão linguística. Lidamos diariamente com documentos em inglês, francês, árabe e outros idiomas. Para preservar a segurança das informações, a própria UNFPA disponibiliza uma ferramenta de inteligência artificial para auxiliar nas traduções.
O que mais diferencia a auditoria realizada na ONU da que é feita pelos tribunais de contas brasileiros?
O principal diferencial é a forma de relacionamento com os gestores. Todo o trabalho é construído por meio da mediação. Os achados de auditoria são discutidos continuamente com os responsáveis pela entidade. Precisamos demonstrar porque determinado achado é relevante, qual impacto ele produz e, principalmente, construir em conjunto uma recomendação para solucionar o problema.
Ao final, o gestor pode aceitar ou não aquela recomendação. Essa dinâmica é bastante diferente da realidade brasileira. Mesmo nas auditorias operacionais, em que existe maior diálogo com o jurisdicionado, não chegamos a esse nível de negociação sobre os achados.
Outra diferença importante é que o relatório final não pertence à equipe de auditoria. Ele é um documento do Board, composto pelos três países responsáveis pela auditoria da ONU. O relatório passa por diversas revisões internas, inclusive por uma equipe técnica da própria ONU, antes de ser submetido à Assembleia Geral, que exerce tanto o papel de instância deliberativa quanto de prestação de contas aos países doadores.
Quais foram os principais aprendizados dessa experiência?
Foi necessário desenvolver uma postura de muita humildade. Nós saímos de um modelo de auditoria mais voltado à responsabilização para atuar em um ambiente de cooperação e negociação permanente. É preciso conversar, argumentar, construir soluções conjuntamente e, muitas vezes, negociar o acesso às informações necessárias.
Também foi um enorme aprendizado técnico. Trabalhamos com diferentes ciclos de auditoria, analisando bilhões de dólares em um período muito curto. Como a entidade só fica disponível em duas janelas ao longo do ano, precisamos utilizar continuamente matrizes de risco para concentrar esforços no que realmente é mais relevante.
Além disso, essa experiência mostrou que o Brasil tem muito a contribuir com a auditoria internacional.
O que a participação do Brasil acrescentou ao trabalho do Conselho de Auditores?
O Brasil integrou o Conselho ao lado da França e da China, duas grandes potências mundiais. Foi muito interessante perceber que a abordagem brasileira trouxe contribuições importantes.
O Brasil apresentou uma visão diferente dos outros dois países, fortemente apoiada no uso de tecnologia para aumentar a eficiência dos trabalhos. Utilizamos ferramentas tecnológicas que permitem ampliar a capacidade de análise mesmo com recursos limitados.
Essa experiência mostrou que, além de aprender com outros países, o Brasil também tem práticas inovadoras e uma metodologia de auditoria capaz de agregar valor ao trabalho desenvolvido pelo Conselho de Auditores da ONU.
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