
Especialistas da área da saúde e neurodesenvolvimento infantil apresentaram, nos painéis da Jornada Capixaba pela Primeira Infância, promovida pelo Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES), como os primeiros anos de vida de uma criança constituem uma janela única de desenvolvimento, e são o período que se formam as bases de aprendizagem, da saúde, dos vínculos afetivos, da segurança emocional e da capacidade de convivência.
Por isso, demonstraram que cuidar da Primeira Infância é proteger o presente e transformar o futuro da população, e nenhuma sociedade pode construir um futuro verdadeiramente próspero se não cuidar bem de suas crianças no início da vida.
No painel temático “Começar Bem: Cuidado, Vínculos e Desenvolvimento”, realizado no evento nesta quarta-feira (5), os médicos pediatras Daniel Becker e Priscila Xavier apresentaram sua experiência profissional e seu conhecimento científico para auxiliar no planejamento governamental e realidade municipal.
Daniel Becker foi o primeiro palestrante, abordando o papel das famílias, das políticas públicas e da sociedade na Primeira Infância. Segundo ele, ainda há muito desconhecimento da importância desse momento da vida, e a Primeira Infância é uma grande “janela de oportunidade” para o desenvolvimento de múltiplas competências com intensidade e facilidade, para que as crianças possam alcançar todo o seu potencial.
“A maioria dos brasileiros não sabe da importância da primeira infância, não sabe o que é a primeira infância, e acha que o período mais importante para o desenvolvimento é depois da adolescência. Mas a ciência mostra como a primeira infância saudável impacta o futuro adulto em sua saúde física e mental, nos vínculos afetivos, na trajetória escolar e nas oportunidades de trabalho”, afirma.
Ele pontuou que esse período, que é uma fase rica em experiências e descobertas, é quando o cérebro aprende e se desenvolve, formando a base da arquitetura cerebral, com um milhão de novas sinapses por segundo. Por isso, experiências positivas e negativas têm grande impacto na formação da criança.
Nesse sentido, Becker apontou como a violência contra crianças representa um grande risco social e que disparou em todo país nos últimos anos. Além disso, uma nova forma de violência existente, destacou o pediatra, é a interferência do celular nas relações entre pais e filhos, que causa inclusive a perda de desenvolvimento e de autoestima para a criança.
O médico frisou o quanto brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil, mas nos últimos 50 anos houve um declínio progressivo da atividade.
“A brincadeira livre, entre crianças, sem supervisão de adulto, é a mais efetiva para o desenvolvimento, cria autoconfiança, cria maiores habilidades, eles vão negociando regras, se comunicando, desenvolvendo empatia, resolvendo conflitos, pensando, criando, se fortalecendo fisicamente. E isso está sendo perdido, trocado por uma infância confinada, ansiosa. Quando a gente evita a brincadeira livre e o risco e confina as crianças, a única solução é jogá-las nas telas, que é o maior desafio da infância hoje”, afirmou.
Becker apresentou dados sobre o uso de smartphones e redes sociais pelas crianças, e alertou que as crianças brasileiras são hoje as mais conectadas, passando de 2 a 3 horas diárias mesmo antes dos seis anos.
O papel da família é fundamental para o desenvolvimento integral da criança, mas para tanto, o pediatra orienta a necessidade da educação parental. “Muitos pais não sabem da importância de brincar, evitar a violência, de dar comidas mais nutritivas para as crianças, muitos são enganados por antivacinas, liberam telas pois não sabem que faz mal”, afirma.
Para isso, ele indicou o Guia de Primeira Infância da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, lançado recentemente, para famílias, professores e gestores.
Traumas
A segunda apresentação ficou a cargo da pediatra e especialista na prevenção de traumas na infância, Priscila Xavier, que abordou os perigos do estresse tóxico na primeira infância, e seu custo invisível para a saúde, educação e sociedade.
Ela citou que hoje, 400 milhões de crianças em todo o mundo sofrem violência em casa como parte da criação, segundo dados do Unicef, e no Brasil, somente em 2026, a violência infantojuvenil já gerou mais de 115 mil denúncias. Outro dado é que entre 2021 e 2025 houve um aumento de 106,1% de casos nos maus-tratos contra crianças.
“Para muitas crianças, a ameaça mora dentro do próprio lar. O corpo delas recebe descargas de adrenalina, cortisol e entra em estado de luta, e crianças que não têm a opção de sair daquele ambiente, que é onde deveria existir segurança e proteção, pois ela é vulnerável. O cortisol não ‘desliga’, o alarme permanece ativado, tocando incessantemente”, explicou.
Priscila pontuou que quando o estresse é intenso e persistente na vida da criança, o organismo se adapta para sobreviver, e essa adaptação pode aumentar o risco de adoecimento ao longo da vida.
“Os seres humanos nascem imaturos, o desenvolvimento acontece no ambiente extrauterino. A primeira infância é o período em que órgãos e sistemas estão se desenvolvendo no seu maior potencial: sistema imune, digestivo, metabólico, sistema nervoso. A energia que a criança precisa deve ser direcionada para o desenvolvimento de seus órgãos e sistemas. Quando ela não tem um adulto que traz segurança, pelo contrário, é quem a violenta, ela passa a ter que desviar a energia para se defender”, contextualiza.
A médica mostrou também que já há pesquisas robustas sobre quais são as 10 principais experiências adversas na infância: violência física, violência emocional, abuso sexual, negligência física, negligência emocional, doença mental de um cuidador, uso abusivo de álcool e drogas, violência doméstica, encarceramento de familiar, e separação ou divórcio dos pais. Há ainda fatores adicionais da comunidade, como a pobreza, racismo institucional, trauma histórico, guerra e migração e efeitos da comunidade ou vizinhança.
“Quanto mais experiências adversas, maior é a chance de doenças ao longo da vida. São questões que hoje a gente trabalha com políticas públicas, mas que a raiz está na primeira infância. E se temos intervenções precisas naquela fase, muda a realidade lá na frente. O trauma ao longo da vida aumenta as chances de vícios, violência, suicídio, desemprego, baixa produtividade, entre outros problemas”, destacou.
Priscila encerrou apontando a necessidade de ações integradas nos municípios, em vez de ações isoladas, e de capacitação continuada para os programas. “Mais importante do que criar novos serviços é fortalecer a capacidade técnica daqueles que já estão na linha de frente. A prevenção começa quando saúde, educação e rede de proteção conseguem enxergar a criança sob a mesma lente”, concluiu.
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